13/10/2026 - Davi Reis / Fonte: iCarros
Imagine que você seja um tomador de decisão na Hyundai do Brasil, e que tenha em mãos um produto de imenso sucesso de crítica e de vendas. Esse produto, o HB20, chegou ao mercado há 14 anos e de imediato gerou alvoroço na principal categoria do mercado brasileiro, agitando uma vida até então bem confortável de modelos tradicionais de marcas consolidadas por aqui há mais de 50 anos. Porém, o tempo passou e seu compacto ainda agrada e vende bem, mas nem de longe dita o segmento como fazia antes. O que fazer?
Se adiantar a uma eventual queda de vendas parece ser uma boa ideia, e foi isso que a Hyundai fez ao lançar o i20 no Brasil – o nome, apesar de inédito por aqui, já é usado há 18 anos em outros mercados, no primo mais sofisticado do nosso HB20. Lançar um novo produto, por si só, nunca é fácil, mas o desafio fica ainda maior quando se considera o histórico de seu antecessor, o primeiro modelo da marca desenvolvido especificamente para o mercado local. Ainda assim, atributos para essa missão ele já demonstrou ter.
Melhoria contínua
Quem viveu o lançamento do HB20 em 2012 com certeza vai se lembrar de algumas características bem marcantes daquele primeiro modelo: o acabamento saltava aos olhos na categoria, assim como o potente motor 1.6 16V, mas a suspensão traseira não lidava bem com peso e a segunda fileira de assentos era baixa e desconfortável, especialmente por conta da linha de cintura alta. Com o passar dos anos, todos os problemas iniciais foram endereçados, e a boa notícia é que no i20 a marca claramente aplicou anos de aprendizado para entregar um produto muito mais maduro do que era aquele primeiro HB20.
A plataforma K3 é responsável por parte disso: tecnicamente mais sofisticada, ela oferece maior rigidez torcional, prometendo melhorar o comportamento do carro e sensação geral de solidez especialmente em velocidades mais altas. Além disso, ela utiliza ligas de aço de ultra e alta rigidez para proteger os ocupantes em caso de impactos, e está pronta também para a adoção de conjuntos motrizes eletrificados, algo que a linha ainda não oferece. Por enquanto, a Hyundai apostou em time que já está ganhando: o i20 é oferecido com as mesmas opções de motor e câmbio do HB20, ou seja, o motor 1.0 aspirado com câmbio manual de 5 marchas e o 1.0 turbinado, com câmbio automático de 6.
Diferença que se vê
Visual é subjetivo, mas é impossível negar que a Hyundai tem personalidade: goste ou não das linhas adotadas, seus modelos são fáceis de se reconhecer e não podem ser chamados de genéricos. Se em encarnações anteriores, HB20 e Creta foram alvo de polêmicas, agora é a vez do i20, que adota uma filosofia externa que a marca chama de “Art of Steel”, com traços retos e linhas marcantes que buscam remeter a obras de arte criadas a partir do aço. O julgamento sobre esse conceito fica a seu critério, mas o fato é que o i20 chama a atenção, mais do que qualquer outro hatch compacto testado recentemente.
Por dentro, a tentativa de ruptura continua: por mais que as linhas remetam ao do Kona, o SUV híbrido da marca, o conceito foi batizado pela marca como “Dynamic Premium Tech” – um visual de linhas verticalizadas, especialmente nos comandos e saídas de ventilação, com uso de cores claras nessa versão topo de linha. Mais uma vez, bonito ou feio é subjetivo, mas objetivamente, o acabamento deixa a desejar: nessa faixa de preço já é comum encontrarmos revestimentos em tecido no painel e portas, com aplicação de espuma, e nada disso existe no i20 (nem mesmo no apoio dos cotovelos).
Ainda no campo das percepções visuais, é impossível não falar sobre o elefante na sala: é um hatch ou SUV? Vejamos, tem cara de hatch, vão de livre de hatch e a própria montadora o considera um hatch, logo... é um hatch. Apesar disso, as caixas de roda têm uma moldura preta que invocam alguma alma utilitária, e o porte fica bem alinhado a carros como Tera, Kardian, Sonic e Pulse, todos considerados SUV’s sub-compactos. Podemos dizer que ele atua em uma faixa cinza, de transição, entre os poucos hatches compactos topo de linha que ainda existem e a porta de entrada dos SUV’s nacionais.
Diferença que se sente
Se você chegou até aqui, você possivelmente gosta do visual do i20 ou, pelo menos, não desgostou a ponto de desistir do carro. Ótimo, pois agora vem a melhor parte: o novo hatch é muito melhor de dirigir do que qualquer outro Hyundai nacional, incluindo o Creta, e tem um padrão de isolamento e sofisticação de rodar digno de veículos médios. A plataforma K3 cumpre o que promete: o i20 roda sólido, de maneira silenciosa a ponto de parecer que está desfilando, com um isolamento exemplar de ruídos externos e vibrações. Seu comportamento é sempre seguro, mesmo em velocidades mais altas e frenagens mais fortes (quem dirigiu bastante o HB20 pode se lembrar da traseira solta nessas situações), ao mesmo tempo em que a suspensão tem amortecedores bem suaves que trazem grande sensação de conforto em pisos ondulados. A direção é um pouco mais pesada do que em concorrentes, mas ainda longe de ser um problema, e consequentemente entrega precisão e controle extremamente agradáveis (nada daquela direção que muitos consideravam leve demais no primeiro HB20). Em acerto de chassi, a Hyundai claramente aplicou os 14 anos de experiência no seu novo modelo.
Ainda assim, existem pequenos pontos de melhoria: a escolha de pneus é um pouco ousada – são pneus 205/50 R17, com ótimos Pirelli Cinturato P7 de nova geração – com flancos baixos demais que podem não resistir tão bem a buracos mais profundos. Essa medida, aliada às buchas e molas mais firmes, deixam o i20 menos tolerante à buracos e impactos rápidos, o que pode incomodar ao motorista que busca um carro totalmente isolado do piso. Além disso, a suspensão traseira mostra ser mais firme que a dianteira, e o ângulo de ataque poderia ser melhor: valetas e lombadas não foram um problema durante o teste, mas tome cuidado em algumas rampas de garagem.
Ainda na comparação direta ao HB20, a acomodação geral melhorou bastante: os bancos são mais cômodos, a posição de dirigir é baixa e oferece uma ampla gama de possibilidades de ajuste, o espaço traseiro é bom para pernas e cabeça e o porta-malas vai a 346 litros no padrão VDA, 46 a mais do que o HB20 oferece. O rodar é melhor, o isolamento é exemplar, o espaço é maior... E na hora de acelerar, mais avanços?
Bem, não. Por conta das novas regras de incentivo fiscal, o conhecido motor TGDi ficou mais fraco: agora são 115 cavalos e o torque vai a 17,5 kgfm, independente do combustível. Essa nova calibração chegou também ao resto da linha, mas, puxando um carro maior e mais pesado do que o HB20 anterior, com 120 cavalos, a comparação é inevitável – o i20 desenvolve bem na cidade, auxiliado pelo câmbio automático bem escalonado e acelerador bastante responsivo, mas desempenho máximo não é sua característica mais marcante. Levando 1 segundo a mais para chegar aos 100 km/h em relação ao HB20, o i20 tem desempenho apenas aceitável em velocidades mais altas e carro cheio, sentindo falta de mais motor principalmente em retomadas rodoviárias ou em subidas. Em números oficiais, o carro leva 11,7 segundos para chegar aos 100 por hora e tem velocidade máxima de 184km/h.
Se você rodar apenas na cidade, possivelmente não irá se incomodar, e por outro lado vai gostar bastante do consumo, auxiliado pela presença do start-stop (que tem o acionamento um pouco brusco em algumas situações, especialmente quando desliga o motor com o carro ainda em movimento).
Testado com gasolina comum, esses foram os números:
Importante lembrar que o consumo pode variar de acordo com inúmeros fatores, como estilo de direção, carga, relevo e, principalmente, estilo de direção. Os números são referenciais e não devem ser usados em comparações diretas.
Por último, mas não menos importante
Como você deve ter notado, me dei bem com o i20, mas e do ponto de vista de comodidade? Além do bom espaço interno e isolamento geral, a lista de itens agrada, mas algumas ausências são inusitadas para uma versão topo de linha.
Vamos começar pelos pontos positivos: a central de 12,3 polegadas tem espelhamento sem fio, ótima qualidade de imagem, sistema operacional fácil de usar e boa qualidade de som. Os comandos físicos são ótimos e alguns ainda podem ser configurados conforme a preferência do motorista. O ar-condicionado é automático de 1 zona, com intensidade do modo automático regulável (ótimo para quem gosta de evitar velocidades altas demais do ventilador). O freio de estacionamento é eletromecânico com o cômodo auto-hold, muito bom para trânsito parado, e a chave é presencial.
Porém, a R$140.000, algumas ausências são estranhas para uma versão topo de linha: o painel de instrumentos usa uma pequena tela digital ladeada por mostradores de LCD (ou seja, não é um painel completo de 12 polegadas como comunicado), o carregador por indução não é refrigerado, não temos sensor de estacionamento dianteiro, retrovisor interno eletrocrômico, sensor de chuva e apenas a porta do motorista tem o sensor da chave presencial (ou seja, não é possível acessar o carro pelo lado do passageiro apenas com a chave no bolso).
O troco vem na lista de itens de segurança, com um pacote bastante robusto. São airbags frontais, laterais e de cortina, além de assistências avançadas de condução: piloto automático adaptativo com função stop & go, frenagem automática de emergência com função para pedestres, ciclistas e conversão, sistema de centralização de faixa, sensor de ponto cego e tráfego cruzado e farol alto automático (faróis, inclusive, que usam projetores e tem ótimo facho). A única ausência notável é o leitor de placas de velocidade, ainda que perdoável.
O fenômeno vai se repetir?
Analisando friamente o produto, todas as credenciais necessárias para que o sucesso do HB20 se repita estão aqui. Existem pequenos deslizes, mas que não afetam a percepção geral do produto e, pelo histórico da marca de ajustes rápidos, não devem perdurar por muito tempo. O preço, apesar de não ser exatamente baixo, também não destoa de carros semelhantes, por mais que nessa faixa possa ser estranho ver um hatch se aventurando entre SUV’s sub-compactos. Talvez seja esse o principal ponto de atenção com o i20: apesar da etiqueta, é esperado que o novo Hyundai Bayon seja o verdadeiro concorrente dos aventureiros urbanos de hoje, e nesse contexto o i20 acaba tendo pouco espaço para crescer em suas versões topo de linha.
Como está hoje, é um carro que já vale a pena conhecer: é louvável a Hyundai oferecer um veículo de visual distintivo como esse, em uma categoria que muitos parecem ter esquecido existir, com um pacote de segurança de respeito e construção digna de médios. Vale a compra? Isso, o mercado dirá com o tempo, mas o fato é que o i20 ainda está procurando seu espaço em uma categoria que, por si só, tem sua existência ameaçada pela moda dos veículos altinhos.
Positivo:
Negativo:
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