16/10/2026 - Davi Reis / Fonte: iCarros
Em 10 anos de mercado, o Mobi foi testemunha de uma imensa mudança no segmento automotivo. Quando lançado, em 2016, o sub-compacto da Fiat tinha como único concorrente o Volkswagen Up e dividia concessionária com Uno, Palio, Punto e Bravo, apenas para citar a linha de hatches da marca italiana. Invasão chinesa? A primeira onda já tinha acontecido, mas ficou mais na promessa do que na entrega. Carro elétrico? Coisa de ficção.
Em 2026 as coisas são diferentes: leis de emissão e segurança ficaram mais restritivas, o consumidor não aceita mais carros pelados e é possível comprar um carro elétrico 0 km na faixa dos R$110.000, mas o Mobi mudou mais na etiqueta do que na filosofia. Os R$31.900 cobrados pela versão de entrada em 2016 (Easy), corrigidos, vão a R$51.900 em valores atuais, e os R$43.800 cobrados pela versão aventureira da época (Way On), se traduzem em R$71.200, corrigidos pelo IPCA do IBGE – hoje, a preço de tabela, as versões equivalentes vão a R$85.500 (Like) e R$87.900 (Trekking), respectivamente.
O não tão novo básico
Mudanças ocorreram para justificar parte desse peso maior na etiqueta: hoje, todo Mobi tem de série ar-condicionado, direção elétrica, vidros dianteiros elétricos, trava elétrica, controle de estabilidade e cintos de segurança de três pontos com apoios de cabeça para todos, sem falar no motor Firefly, mais caro e moderno em toda a linha. Esse “novo” básico já é o padrão do mercado brasileiro há algum tempo, mas nenhum desses itens eram padrão da linha Mobi há 10 anos. Achou pouco? A Fiat também laçou algumas cartadas para o seu veículo de entrada nessa janela.
Classe econômica plus
Em uma de suas mudanças recentes, para a linha 2026, o Mobi recebeu o mesmo painel da Fiat Strada, com nova disposição dos elementos e novo volante universal da marca. Não espere, porém, que o padrão de acabamento tenha mudado: os materiais continuam bastante simples, como se espera, com predominância do plástico injetado (sequer temos espuma ou tecido no apoio de cotovelo das portas) e uma montagem geral apenas correta, sem destaques. Por outro lado, agrada a criatividade da marca em brincar com diferentes texturas, que ajudam a dar uma impressão melhor do interior, que passa bem longe de ser desagradável – pode não ser referência tecnológica diante do novo Kwid, mas não vai te incomodar, especialmente com a forração dos bancos exclusiva da versão Trekking.
Em espaço, sem uma nova geração, não há o que fazer: o Mobi é um carro apenas justo para 4 passageiros, desde que todos tenham estatura no máximo mediana, e que não pretendam fazer longas viagens a bordo. O porta-malas, de 200 litros, também não convida a viajar com o carro cheio, e um eventual passageiro central no banco traseiro vai repensar o pedido de carona muito rapidamente. Dois passageiros de maior estatura na frente fatalmente irão tornar a segunda fileira praticamente inabitável.
Por outro lado, dificilmente alguém poderá reclamar dos equipamentos de comodidade oferecidos, especialmente com o pacote opcional Pack Top, de R$2.900. Central com espelhamento sem fio de telefone via Android Auto e Apple CarPlay, sensor de estacionamento, volante multifuncional com regulagem de altura, banco do motorista com regulagem de altura, retrovisores externos com regulagem elétrica e tilt-down do lado do passageiro, alarme, computador de bordo... Para a cidade e viagens com apenas duas pessoas, não há do que sentir falta.
Pena que o mesmo não pode ser dito do pacote de itens de segurança. Nem mesmo na versão Trekking, topo de linha e com opcionais, o Mobi vai além do que a lei exige: temos airbags frontais, freios anti-travamento, controle de estabilidade, cinco apoios de cabeça e cintos de segurança de três pontos, fixação Isofix para cadeirinhas, repetidor de setas nas laterais e luzes diurnas de rodagem. Nessa faixa de preço, concorrentes como o Renault Kwid vão além, oferecendo também as bolsas de ar laterais, e o Mobi também não foi bem avaliado pelo Latin NCAP em 2017 – mesmo em um protocolo já antigo, ele recebeu apenas 1 estrela nos testes do instituto, oferecendo proteção marginal ao peito dos ocupantes dianteiros e apresentando alta intrusão da cabine em impactos laterais. Dados atualizados infelizmente não estão disponíveis.
Já dirigiu o Novo Uno?
Caso sim, você conhece muito bem o Mobi. Verdade seja dita, a Fiat tem um DNA de rodar bem característico, e o sub-compacto se situa muito bem dentro da marca até hoje. Anteriormente uma exclusividade da versão aventureira, hoje a suspensão elevada é o padrão da linha, e nada daquele problema de elevar o carro e deixá-lo duro demais, bastante comum em diversas marcas nos anos 2000 e 2010: o Mobi tem o rodar controlado e suave, absorvendo buracos de maneira muito boa e com movimentos bem progressivos da carroceria.
Passou rápido na valeta? O carro não sacoleja de maneira excessiva. Não viu a lombada? A frente não despenca na saída e a traseira não parece querer dar uma cambalhota. Buraco no caminho? Os pneus 176/65 R14 são altos e te dão uma tranquilidade extra, além do curso longo e coxins de amortecedores eficientes. Rampa maldosa pelo caminho? O vão livre de 19 cm e o ângulo de ataque de 24º (melhor do que muito SUV compacto por aí) te darão tranquilidade. A cereja do bolo: não apenas a calibração é irrepreensível como também seu ruído de funcionamento – tudo é absorvido de maneira absolutamente silenciosa e sem pancadas na cabine. O Mobi pode ser conduzido de uma maneira que só as fabricantes com mais tempo de Brasil podem oferecer: sem medo de destruir a suspensão por uma distração e de maneira mais despretensiosa, até desligada, do piso maltratado.
Se você esperava agora a contrapartida em comportamento dinâmico, lamento te frustrar: evidentemente se sente a altura da suspensão e a carroceria estreita e alta, mas o Mobi é também um carro bastante obediente. Não espere respostas esportivas, é claro, mas ele também pode ser tocado de maneira bem menos pacífica em estradas travadas sem apresentar nenhum tipo de comportamento inseguro. Essa competência dupla os chineses elétricos de entrada ainda não entregam...
A direção com assistência elétrica é leve em manobras, tem boas respostas no trânsito urbano e não transmite os impactos do piso de maneira exagerada, contribuindo para a boa sensação de isolamento, mas poderia ter um pouco mais de precisão, especialmente com o carro cheio – com carga máxima, já em velocidades de cidade algumas correções frequentes se fazem necessárias. O diâmetro de giro de apenas 9,9 metros, facilitam balizas e manobras apertadas tanto quanto o comprimento contido do carro.
O câmbio também é tipicamente Fiat: os engates são longos, mas fáceis, razoavelmente precisos e leves, mas até demais – se a alavanca tivesse um pouco mais de peso e sensação mecânica no comando, a percepção de qualidade seria melhor. Suas relações são bastante curtas, típicas de carros citadinos, conforme notamos pela velocidade máxima em cada marcha a 6.500 rpm:
A 120 km/h e última marcha, o motor gira a 4.000 rpm, faixa típica de outros carros com as mesmas características.
O motor certo para o carro certo
Quando o Mobi era apenas alvo de especulação dos caçadores de segredos automotivos, já se falava em uma inédita família de motores feita com o modelo em mente. Porém, no lançamento, tínhamos apenas o motor Fire à disposição, o que decepcionou aqueles que esperavam uma opção mais moderna para o veículo.
Naquele mesmo ano, porém, a resposta: o Firefly foi apresentado, inicialmente no Uno, e rapidamente chegou ao irmão menor. Apesar da pouca diferença em potência máxima, a potência média era bem melhor, graças ao torque superior e mais disponível em baixas rotações. Com esse motor, o carro finalmente tinha desempenho e consumo parelhos as melhores referências da época, mas ele foi oferecido apenas nas versões topo de linha (com câmbio manual e automatizado) – e para completar, por pouco tempo, sendo descontinuado em 2020.
Foram necessários 5 anos para que o casamento fosse refeito, forçado pelas regras de emissão mais exigentes: dessa vez, porém, o Firefly se tornava padrão da linha, aposentando de vez o Fire depois de 25 anos de bons serviços prestados. Atendendo às atuais regras de emissão, são 75/71 cavalos de potência (A/G) e 10,7/10 kgfm de torque (A/G): a potência fica abaixo da maior parte dos motores concorrentes, mas o torque fica no topo da tabela. Em números oficiais, o Mobi chega aos 100 km/h em 13,8 segundos e tem máxima de 164 km/h, números obviamente mais do que suficientes para uso urbano. Com esse motor, temos também o retorno da direção com assistência elétrica, em substituição a antiga hidráulica.
Mas e fora da teoria, na prática? A agilidade do Mobi em trajetos urbanos é notável e bastante agradável. O motor não apenas tem potência palpável em baixos giros, como também é auxiliado pelo baixo peso (969 kg), pelo câmbio de relações curtas e acelerador típico de carro 1.0, com bastante abertura da borboleta com pouco comando no pedal. É fácil empilhar marchas na cidade, recomendado pelo próprio painel de instrumentos, mantendo respostas corretas e atingindo números bastante interessantes de consumo: no nosso teste, no trânsito urbano típico de São Paulo, conseguimos fazer médias de até 13 km/l em situações de tráfego intermediário. Poderia ser ainda melhor com o start/stop, que equipou as primeiras unidades do Argo com este mesmo motor. Importante lembrar que números obtidos em condições diferentes não são diretamente comparáveis, e esse resultado pode variar de acordo com inúmeros fatores.
No campo das sensações, as percepções são um pouco mais mistas: o motor é razoavelmente silencioso mesmo levado ao corte, mas vibra muito até os 2.000 giros, passando uma sensação de que está sendo usado na marcha (ainda que estejamos seguindo a recomendação do painel, no plano). Como é comum em motores 1.0, o giro cresce rápido e nem o fato de termos um cabeçote de 2V por cilindro parece enforcar o fluxo de ar de maneira dramática. A alavanca de câmbio também vibra bastante, já a partir das 2.000 rpm com carga no acelerador, algo que não acontecia com o velho motor Fire. O isolamento geral, assim como nas primeiras aplicações desse motor ao Mobi, poderia ser melhor.
Vivendo no limite
Para quem gosta de dirigir e sabe extrair a potência de um motor fraco, ainda existe algo de bastante especial em carros como o Mobi: em tempos de veículos que se tornaram cápsulas individuais e cada vez mais autônomas, de certo modo é até mágico interagir com um veículo à moda antiga – a interface entre homem e máquina ainda é um elemento bem claro no Mobi, ainda que possa ser feito de maneira bastante relaxada. O motor pode ser levado a altos giros sem te tornar um maníaco nas estradas, o trabalho de suspensão é absolutamente admirável e a chance de intermediar o motor conforme seu desejo pelo câmbio manual é sempre muito boa.
Para aqueles que apenas buscam um meio de transporte discreto, prático e eficiente, a magia não é menor: mesmo quem não dá a mínima para carro (ainda bem que não é o nosso caso, não é mesmo?), é altamente apreciável poder usar o seu veículo sem maiores preocupações, gastar pouco no posto e encontrar vaga fácil a qualquer momento. O Mobi é fácil de usar e não exige muito de você, e isso é sempre positivo.
Recomendável e agradável, o Mobi é, mas não pelo preço de tabela. A unidade avaliada, com pintura vermelha (R$790) e o pacote de opcionais de R$2.900 (que acrescenta rodas de liga leve, retrovisores externos elétricos com tilt-down, sensor de estacionamento, regulagem de altura do cinto de segurança e comando interno de tanque e porta-malas), chega aos R$91.770 (valores de 5/10/26), mas não é difícil encontrar promoções na rede Fiat que derrubam esse preço para algo ao redor dos R$80.000 – ainda um preço muito alto, mas pelo menos mais condizente ao atual mercado de veículos 0 km.
Infelizmente não há muito o que procurar abaixo desse preço: suas únicas alternativas são Renault Kwid, que oferece maior porta-malas e airbags laterais, mas perde em construção e dirigibilidade, e o Citroën C3, que pode ser encontrado por preço parecido em promoções na versão de entrada, oferecendo o mesmo conjunto mecânico e bastante espaço, mas uma lista bem mais enxuta de equipamentos.
Muito se fala em invasão chinesa, carros eletrificados e cheios de tecnologia, mas a realidade do Brasil fora dos grandes centros nem sempre é tão propícia a tanta novidade. Por isso carros como o Mobi ainda precisam existir, mas fica a nossa recomendação: independentemente de sua escolha, negocie. Os preços estão altos, mas as marcas tradicionais estão propensas a trabalhar com grandes descontos em cima do preço de tabela, o que pode ser uma chance de diminuir (ou pelo menos, tentar) a distorção que ficou tão comum nos últimos anos.
Positivo
Negativo
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